FMI identifica Moçambique entre as economias mais dependentes da ajuda externa – Times de Todos

Apesar da previsão de crescimento de 4,1% em 2025, o Fundo Monetário Internacional (FMI) adverte que Moçambique continua entre as economias mais expostas à retração da ajuda internacional e à pressão orçamental. O país, classificado como de rendimento médio-baixo, enfrenta elevada dívida pública, limitações fiscais e uma urgente necessidade de aumentar receitas internas, num momento em que tenta reforçar a credibilidade conquistada com a saída da lista cinzenta do GAFI.
Segundo o Relatório “Perspectivas Económicas Regionais: África Subsariana – Numa trajectória estável”, publicado em novembro, o FMI indica que a região subsaariana deve manter um crescimento médio de 4,1% em 2025, com ligeira aceleração em 2026. Contudo, alerta que essa estabilidade “não pode ser dada como garantida”, especialmente diante da redução da ajuda pública ao desenvolvimento.
A ajuda bilateral à região, que corresponde a cerca de 1,5% do rendimento total, poderá cair entre 16% e 28% em 2025, segundo projeções da OCDE citadas pelo Fundo. Entre os países mais vulneráveis estão Moçambique, Burundi, Serra Leoa e Comores. O relatório observa que, em Estados frágeis, essa quebra poderá representar mais de 10% das receitas públicas, afetando áreas essenciais como educação e saúde.
Dívida alta e orçamento limitado
O relatório destaca que 20 países da África Subsariana estão em risco elevado de sobreendividamento, incluindo Moçambique. Apesar de alguma estabilização recente, a dívida continua “em níveis muito altos”, e os juros absorvem grande parte das receitas do Estado, restringindo os gastos em infraestruturas e desenvolvimento social.
Entre 2025 e 2027, o rácio juros/receitas na região permanecerá bem acima da média mundial, reduzindo o espaço fiscal disponível. O FMI alerta que o aumento do custo da dívida “está a travar o investimento produtivo” e, no caso moçambicano, a dependência de financiamento interno agrava o problema.
O recurso crescente do Estado aos bancos nacionais cria um “nexus soberano-bancário”, onde o governo e o sistema financeiro tornam-se mutuamente dependentes, elevando o risco de instabilidade e limitando o crédito ao setor privado.
Inflação sob controlo, mas riscos persistem
A inflação regional recuou de 6% em 2023 para cerca de 4% em 2025, impulsionada pela descida dos preços internacionais de energia e alimentos. Mesmo assim, o FMI estima que um quinto dos países africanos continuará com inflação de dois dígitos, incluindo Angola, Etiópia, Gana e Nigéria.
Em Moçambique, a desaceleração inflacionária não foi suficiente para aliviar o custo de vida, sobretudo devido à depreciação do metical e à dependência de importações. As reservas internacionais permanecem frágeis, cobrindo apenas 2,5 meses de importações, abaixo do mínimo recomendado de três meses.
FMI defende mais receitas internas e transparência na dívida
O FMI insiste que os países da região, incluindo Moçambique, devem reforçar a arrecadação interna e melhorar a gestão da dívida pública. Segundo o Fundo, essas políticas são fundamentais para “assegurar a estabilidade macroeconómica e financiar prioridades de desenvolvimento”.
O relatório cita exemplos de sucesso, como Ruanda e Togo, que modernizaram os seus sistemas fiscais através da digitalização e integração de serviços tributários. Para Moçambique, o desafio é reduzir a informalidade, aumentar a transparência e restaurar a confiança dos contribuintes.
Além disso, o FMI encoraja o país a explorar mecanismos inovadores de financiamento, como parcerias público-privadas e conversões de dívida em investimento social e ambiental, à semelhança do que ocorreu na Costa do Marfim e no Gabão.
Essas soluções podem ser estratégicas para um país com alta vulnerabilidade climática e forte dependência de financiamento externo para infraestruturas — fatores que tornam Moçambique particularmente sensível à retração da ajuda internacional.




