“Nosso inimigo comum, moçambicanos, é a Frelimo. Vamos derrubar essa Frelimo”, diz Fátima Mimbire em entrevista – Times de Todos

A activista social Fátima Mimbire, recém-entrada na política eleitoral, criticou duramente a condução do Diálogo Nacional Inclusivo, apontando falhas que, na sua opinião, colocam em risco a legitimidade do processo e a estabilidade do país. Em entrevista exclusiva à Integrity Magazine News, Mimbire falou também sobre a gestão do sector extractivo e traçou a sua visão para o futuro político de Moçambique.
Diálogo inclusivo com lacunas
Mimbire questionou a real abrangência do diálogo promovido pelo Governo, afirmando que mudanças de última hora nos locais das consultas e a falta de acesso têm impedido a participação de muitos cidadãos. Para ela, a inclusão não pode ser “cosmética”: é preciso um compromisso político real que assegure que todos os moçambicanos sejam ouvidos.
“A participação tem de chegar até às aldeias, não pode ficar restrita às capitais”, defendeu, sugerindo a integração de todos os 39 partidos e de actores relevantes, incluindo o novo partido ANAMOLA. A activista advertiu que a exclusão pode provocar ilegitimidade governamental e a criação de processos paralelos de diálogo, com dispersão de esforços e recursos. Como solução para conferir legitimidade aos instrumentos resultantes, propôs a criação de uma Assembleia Constituinte com representação de todos os partidos concorrentes.
Reforma e novo contrato social
Embora o diálogo aborde a revisão da Constituição e da Lei Eleitoral, Mimbire defende um enfoque mais amplo. Para ela, as manifestações do ciclo eleitoral recente revelaram problemas estruturais — sobretudo a sensação de ilegitimidade e de que o voto não conta.
“O objectivo deste diálogo tem de ser a construção de um novo Moçambique”, afirmou, reclamando a formulação de um novo contrato social que redefina o papel dos partidos e a distribuição de recursos, com a revisão constitucional e eleitoral a emergir como consequência desse debate.
“Maldição institucional” na indústria extractiva
Sobre as reservas de gás e minerais, Mimbire rejeita a ideia de que os recursos por si só sejam uma maldição. Em vez disso, aponta para uma maldição institucional: instituições frágeis, um Estado desorganizado e a captura por uma elite política e grupos privados que sacrificam o interesse público.
Citou como exemplo a concessão de estabilidade fiscal de 30 anos a investidores — prática que, na sua opinião, contraria normas internacionais — e a ausência de compensações justas às comunidades afectadas por projectos extractivos. Quanto à violência em Cabo Delgado, defendeu que a paz duradoura passa por além da via militar, integrando desenvolvimento económico e justiça social, e reconheceu a ligação entre terrorismo e exploração de gás. Mimbire já tinha criticado a perda de soberania do país face à presença militar estrangeira na região.
Sociedade civil e a travessia para a política
Mimbire afirmou que a sociedade civil tem capacidade técnica e voz, mas vê-se limitada por “forças bloqueadoras” e pela falta de vontade política do Governo em implementar propostas. Ao justificar a sua entrada na política — depois de ter concorrido ao cargo de Governadora de Maputo pelo MDM — disse não considerar esgotado o activismo fora das instituições, embora note enormes obstáculos para os partidos de oposição, incluindo infiltração e sabotagem interna por quem procura apenas “oportunidades” de rendimento.
Relatou casos de sabotagem durante a campanha, manipulação de listas eleitorais e promiscuidade partidária, com indivíduos transitando entre MDM, RENAMO e novos partidos em busca de cargos. “Há muita infiltração nos partidos; muitos encaram a filiação como caminho para oportunidades”, criticou.
União da oposição como caminho único
Para Mimbire, a única via para mudança real é a união da oposição. Classificando a divisão eleitoral passada como uma “oportunidade perdida”, afirmou que a fraude facilitada à Frelimo decorre da desunião dos adversários. Propôs uma frente unida que reúna MDM, RENAMO e ANAMOLA, pedindo que se deixem de lado interesses e apetites individuais.
“Continuo a acreditar que podemos ser um país multipartidário, mas com uma oposição unida”, declarou, antes de soltar a frase contundente: “Nosso inimigo comum, moçambicanos, é a Frelimo. Vamos derrubar essa Frelimo.”
Mimbire reiterou a sua crítica ao controlo que, segundo ela, a Frelimo exerce sobre o Estado, incluindo influências sobre a polícia, o sistema judicial, a Procuradoria-Geral da República e os órgãos eleitorais, e questionou se os partidos realmente querem retirar a Frelimo do poder — lembrando que, se a resposta for afirmativa, “já sabem o que devem fazer”. Ler artigo completo…
Fonte: Integrity Magazine News




