Mais empregos poderiam ter evitado a guerra em Cabo Delgado

A guerra em Cabo Delgado poderia ter sido evitada se o Governo de Moçambique tivesse criado mais oportunidades de emprego e dado atenção às vozes que, há anos, ecoam do Norte do País. A análise é do investigador e professor Joseph Hanlon, da Universidade de Londres, durante a Conferência dos 50 anos de Paz, organizada pela OMR, em 7 de julho, em Maputo. O evento avaliou o desenvolvimento de Moçambique cinco décadas após a assinatura dos Acordos de Paz, discutindo economia, política e justiça social.
O encontro contou com a presença de representantes da sociedade civil, decisores políticos, académicos e empresários, e trouxe à tona tanto os desafios quanto os avanços do País nos âmbitos económico, político e social.
Hanlon, que acompanha de perto todas as eleições multipartidárias realizadas em Moçambique e a situação em Cabo Delgado, afirmou que a violência poderia ter sido atenuada se o Presidente tivesse escutado as preocupações da população local.
“Nyusi recorreu a tropas ruandesas para combater os insurgentes, mas recusou-se a dialogar com a população e com os próprios insurgentes. Tudo o que eles pediam eram empregos”, afirmou Hanlon. Segundo ele, essa reivindicação não se limita apenas a Cabo Delgado: “A revolta no Norte é apenas o sintoma de um mal nacional. O coro dos manifestantes no período pós-eleitoral é o mesmo dos insurgentes em Cabo Delgado: querem emprego e um futuro digno.”
Crítica à política económica e social
Para Hanlon, Moçambique enfrenta problemas estruturais, como desigualdade crescente, concentração de poder nas mãos de uma elite corrupta e ausência de democracia plena. Ele critica duramente as reformas económicas aplicadas desde o fim do bloco comunista, classificando-as como uma “terapia de choque” — austeridade extrema, liberalização acelerada e incentivo à ganância.
O académico compara essas políticas a uma “segunda colonização”, afirmando que reuniões do G7 nos anos 1991–1992 definiram uma nova dependência económica para África no século XXI, assim como a Conferência de Berlim definiu a partilha colonial no século XIX. Ele também aponta falhas nas privatizações em massa, especialmente no setor bancário, destacando que, embora os bancos tenham colapsado, o Banco Mundial considerou o processo satisfatório.
Estado e sociedade: diálogo é a chave
Apesar das críticas, Hanlon acredita que Moçambique ainda pode dar uma viragem positiva, desde que haja maior capacidade de escuta e diálogo entre Governo e população. Para ele, a instabilidade e os conflitos armados refletem a desconexão entre o poder político e as comunidades locais:
“Moçambique não consegue combater um punhado de insurgentes porque eles têm apoio da população — e o Estado não”, observou.
O professor britânico ressalta que o colapso do País não se deve apenas a decisões internas, mas à influência de entidades internacionais, que mergulharam Moçambique em dívidas silenciosas e em um modelo económico excludente.




