Haverá luz ao fundo do túnel para Cabo Delgado? – Times de Todos

JOHANNESBURGO/MAPUTO – Enquanto os olhares da comunidade internacional se voltam para os conflitos na Ucrânia, Gaza e Sudão, o norte de Moçambique enfrenta um agravamento crítico da violência terrorista. Desde Julho de 2025, mais de 300 mil pessoas foram forçadas a abandonar as suas casas devido à expansão das operações do braço local do Estado Islâmico (EI), elevando o número total de deslocados para mais de um milhão desde o início do conflito.
Incursões para o Sul e Falhas na Segurança
Apesar da presença de cerca de 5.000 militares ruandeses e do esforço das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), a insurgência demonstra uma resiliência alarmante. Em Novembro passado, a ofensiva dos extremistas atingiu o seu ponto mais meridional até à data, penetrando na província de Nampula e provocando a fuga de 100 mil pessoas num único mês.
Especialistas do monitor de conflitos Acled sugerem que a eficácia das forças no terreno diminuiu. Tomás Queface, investigador da organização, aponta que as patrulhas ruandesas já não têm a mesma frequência e que há uma pressão governamental para que as forças nacionais assumam a liderança, o que tem permitido uma maior audácia dos insurgentes.
Prioridade Económica vs. Segurança Humana
O custo humano da guerra tem disparado. Só este ano, o número de civis mortos aumentou 56% em comparação com 2024. Desde 2017, estima-se que cerca de 2.800 civis tenham perdido a vida.
Borges Nhamirre, investigador do Instituto de Estudos de Segurança (ISS), levanta questões pertinentes sobre os objectivos da intervenção militar. Para o analista, o foco parece centrar-se na protecção dos projectos de Gás Natural Liquefeito (GNL), avaliados em 20 mil milhões de dólares, em detrimento da segurança das populações.
“Se o objectivo for garantir a segurança humana, as forças falharam. Mas se o objectivo for proteger os projectos de gás, então têm tido algum sucesso”, afirma Nhamirre.
Crise Humanitária e Défice de Financiamento
A situação das populações deslocadas é agravada por um “esquecimento” internacional que se traduz em menos ajuda. Segundo as Nações Unidas, o financiamento humanitário para Moçambique caiu este ano, cobrindo apenas 55% das necessidades estimadas.
Relatórios da Human Rights Watch (HRW) alertam ainda para o recrutamento forçado de crianças e o aumento da violência sexual. Das 100 mil pessoas que fugiram em Novembro, cerca de 70 mil são crianças, um grupo particularmente vulnerável à exploração por parte dos insurgentes.
Diálogo no Horizonte?
Embora o Presidente Daniel Chapo tenha manifestado abertura para o diálogo com os insurgentes logo após a sua tomada de posse, a sociedade civil mantém-se céptica. Oito anos após os primeiros ataques em Mocímboa da Praia, a ausência de uma estratégia política clara e de iniciativas concretas de mediação deixa o norte do país num ciclo vicioso de deslocamento e violência.
Para os Médicos Sem Fronteiras (MSF), a prioridade dos que fogem é simples, mas parece cada vez mais distante: o regresso seguro às suas machambas e a retoma de uma vida normal.




