“Já não há amizade entre polícia e povo”, admite presidente da Amopaip – Times de Todos

Um ano depois das manifestações violentas que se seguiram às eleições gerais de 2024, a Polícia da República de Moçambique (PRM) ainda luta para restaurar a sua imagem e reconquistar a confiança da população. O presidente da Associação Moçambicana de Polícias (Amopaip), Nazário Muanambane, reconheceu que a corporação enfrenta um momento difícil, tanto em termos de credibilidade quanto de preparação para lidar com situações de protesto.
Em entrevista à Lusa, Muanambane explicou que, durante as manifestações, a força policial agiu com intensidade devido ao elevado nível de violência nas ruas.
“A polícia não tinha como não usar a força. Estávamos perante cidadãos armados, com instrumentos contundentes, e alguns chegaram a tirar a vida a sangue frio de agentes, cidadãos e empresários. Nessa altura, a polícia teve de exceder o uso da força”, afirmou o dirigente.
Os protestos eclodiram em 27 de novembro de 2024, em Maputo, depois que uma viatura da polícia atropelou uma mulher durante uma manifestação. O episódio agravou as tensões que já vinham crescendo desde o assassinato dos militantes Elvino Dias e Paulo Guambe, apoiantes do político Venâncio Mondlane, mortos a tiros no centro da capital logo após as eleições.
“A imagem da polícia ficou desgastada”
Segundo Muanambane, as ações da polícia foram interpretadas por parte da sociedade como politicamente motivadas, o que afetou profundamente o relacionamento com a comunidade.
“Em algum momento, a polícia foi vista como instrumento de um partido político. Isso prejudicou muito a nossa imagem e minou a colaboração com os cidadãos”, lamentou.
O presidente da Amopaip afirmou ainda que a corporação procurava apenas “repor a ordem constitucional” e conter os “oportunistas” que se aproveitavam das manifestações para vandalizar propriedades. Contudo, reconhece que o resultado foi uma perda de confiança pública.
Falta de preparação e riscos futuros
Um ano após os protestos, Muanambane admite que a PRM continua mal preparada para lidar com situações de grande tensão social.
“A nossa polícia ainda é vista como militarizada e partidária. O problema não é físico ou material, mas ideológico e moral. Se algo semelhante acontecer novamente, os resultados podem ser ainda mais tristes”, alertou.
A Amopaip defende a criação de um programa governamental para restaurar a confiança entre polícia e população, a fim de evitar futuros episódios de destruição de esquadras e mortes de agentes e civis.
Protestos deixaram centenas de mortos e milhares de detidos
Dados da plataforma Decide, que monitora processos eleitorais, indicam que as manifestações pós-eleitorais deixaram 411 mortos e 7.200 detidos, dos quais 2.790 ainda permanecem presos.
O relatório “Cicatrizes da Democracia em Moçambique: Impactos Humanos e Falhas de Proteção nas Manifestações Pós-Eleitorais (2024–2025)” revela que 4,2% das vítimas fatais eram agentes das forças de segurança, enquanto 5% eram crianças.
As manifestações, que se prolongaram por mais de cinco meses, tornaram-se um dos episódios mais sombrios da história recente de Moçambique, marcando profundamente a relação entre a população e as forças de defesa e segurança.




