Macamo desmistifica discurso de Venâncio Mondlane e compara a Ventura – Times de Todos

O sociólogo moçambicano Elísio Macamo defende que determinados discursos políticos, vistos frequentemente como irracionais, podem funcionar como radiografias profundas das sociedades onde surgem. Em artigo publicado este domingo, Macamo analisa o fenómeno do populismo em Moçambique, comparando-o com dinâmicas observadas em Portugal, sobretudo no contexto da atuação de André Ventura.
O ponto de partida do texto é a intervenção do político moçambicano Venâncio Mondlane no fórum LibertyCon Berlin, apresentado como candidato à presidência de Moçambique. Macamo assinala que Mondlane utilizou o espaço para expor argumentos que, apesar de factualmente incorretos, refletem um padrão discursivo capaz de mobilizar parte significativa da população.
Entre as declarações citadas, Mondlane afirmou ter “mobilizado 34 milhões de moçambicanos” e “paralisado o país” com protestos contestados pelas autoridades. Para o sociólogo, embora essas afirmações não correspondam aos factos, elas ajudam a explicar o apelo do discurso populista, sustentado pela ideia de que “a verdade importa menos do que a sensação de que finalmente alguém diz o que precisa ser dito”.
Macamo sublinha que esse tipo de narrativa prospera em contextos onde a confiança nas instituições é frágil ou historicamente abalada. No caso moçambicano, afirma que o populismo encontra terreno fértil porque a distância entre o Estado e os cidadãos cria espaço para lideranças que se posicionam como portadoras de uma “verdade moral”, em oposição à racionalidade institucional.
O sociólogo estabelece paralelos entre Moçambique e Portugal, destacando que André Ventura opera com a mesma lógica emocional. Embora os contextos sejam diferentes, Macamo afirma que ambos os discursos se apoiam na frustração popular e na perceção de abandono por parte das instituições democráticas.
Segundo o autor, tanto Mondlane quanto Ventura utilizam estratégias semelhantes: simplificação da realidade, criação de bodes expiatórios, oposição entre “povo” e “sistema”, e afirmações não verificáveis que reforçam a imagem de liderança forte. “Mondlane não paralisou o país e não ganhou eleições. Ventura opera no mesmo registo”, sintetiza.
Macamo argumenta ainda que, quando as democracias não conseguem responder às expectativas sociais, a tentação populista aumenta, pois oferece soluções imediatas para problemas complexos. Para o sociólogo, o fenómeno é preocupante porque tende a transformar o espaço político em palco emocional, afastando-o do debate racional e da capacidade de compromisso.
O artigo conclui que o desafio comum para Moçambique e Portugal é fortalecer instituições, aprofundar a cultura democrática e reduzir a distância entre cidadãos e Estado, de modo a impedir que discursos populistas capitalizem a desesperança.
Elísio Macamo é Professor de Sociologia e Estudos Africanos na Universidade de Basileia.




