Mphanda Nkuwa: comunidades denunciam “colonialismo verde” no rio Zambeze

Um relatório internacional divulgado nesta quarta-feira alerta para o impacto social e ambiental do projecto da barragem de Mphanda Nkuwa, no rio Zambeze, apontando para um cenário de “colonialismo verde” liderado por multinacionais e pelo próprio Estado moçambicano.
O estudo, intitulado “Sem a nossa terra e o nosso rio, morreremos de fome”, denuncia a ausência de consulta às comunidades locais e os riscos de deslocamentos forçados, perda de terras e destruição de locais sagrados. Leia mais sobre os conflitos sociais ligados a grandes projectos em Moçambique.
De acordo com o documento, o consórcio formado pela francesa EDF (40%), a TotalEnergies (30%) e a japonesa Sumitomo Corporation (30%) prevê investir mais de 6,4 mil milhões de dólares na construção da barragem, com conclusão estimada para 2031. Veja como grandes investimentos estão a transformar a economia moçambicana.
O projecto prevê a inundação de mais de 100 km² — equivalente à área da cidade de Paris — e poderá forçar o reassentamento de mais de 1.400 famílias. Estima-se que até 350 mil pessoas que dependem do rio para a agricultura, pesca e pecuária sejam afectadas directamente.
O relatório também acusa as autoridades locais de reprimir vozes críticas e intimidar líderes comunitários, criando um clima de medo semelhante ao vivido durante a construção da barragem de Cahora Bassa, no período colonial.
Organizações ambientais argumentam que o projecto repete um modelo de exploração que beneficia grandes corporações, enquanto empobrece comunidades locais. Além disso, estudos recentes questionam a ideia de que mega-barragens são “energias limpas”, já que libertam gases de efeito estufa durante o processo de decomposição da biomassa submersa.
Os autores do relatório exigem a suspensão imediata do projecto até que os impactos sociais e ambientais sejam revistos e que as comunidades possam exercer o direito ao consentimento livre, prévio e informado.
A polémica em torno de Mphanda Nkuwa volta a expor a tensão entre desenvolvimento económico e justiça ambiental em Moçambique, onde a pressa por atrair investimento estrangeiro tem colocado em risco direitos básicos de populações inteiras.




