Política

Governo da Itália condecora Nelson Moda por contributo à paz e cooperação bilateral

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O Governo da Itália distinguiu o cidadão moçambicano Nelson Moda com a Ordem da Estrela de Itália, em reconhecimento do seu percurso e contributo marcante para o diálogo, a paz e o fortalecimento das relações de cooperação entre Itália e Moçambique. A cerimónia formal de entrega da distinção foi orientada pelo Embaixador da Itália em Moçambique, Gabriele Annis, que destacou o papel desempenhado pelo homenageado na aproximação entre os dois países.

Jossias Sixpence – Beira

Entre os principais aspectos que estiveram na base da condecoração sobressai o trabalho desenvolvido por Nelson Moda no âmbito da Comunidade de Santo Egídio, organização que desempenhou um papel histórico e relevante nos esforços de mediação e construção da paz em território moçambicano. Para o condecorado, embora a insígnia seja atribuída a título pessoal, ela representa sobretudo o reflexo de um esforço colectivo.

“A condecoração é pessoal para Nelson Moda, mas eu penso que, por detrás, está a Comunidade de Santo Egídio. É uma condecoração que reconhece Nelson Moda, reconhece a Santo Egídio, mas também reconhece Moçambique e os moçambicanos como sujeitos que têm contribuído para a sua pacificação”, afirmou.

A reflexão de Nelson Moda estendeu-se ao percurso histórico do país, recordando que Moçambique conseguiu, após 16 anos de conflito armado, encontrar uma via de consenso que culminou na assinatura do Acordo Geral de Paz, a 4 de Outubro de 1992, um marco que continua a ser visto como referência na resolução de conflitos em África.

Democracia em construção e desafios institucionais

Mais de três décadas após o fim da guerra, o antigo mediador considera que o país registou progressos inegáveis, sobretudo ao nível do desenvolvimento humano, da participação cívica e do exercício de liberdades fundamentais que antes eram inatingíveis.

“Estou satisfeito por conseguir ver os progressos ao nível da população, do capital humano e do desenvolvimento, comparando com o período de 16 anos de guerra”, sustentou.

Apesar dos avanços evidentes, o homenageado defende que persiste margem para aprofundar e consolidar a democracia moçambicana, apontando lacunas na participação popular, na gestão pública e na integridade dos processos eleitorais. Para Moda, as decisões políticas e económicas, bem como a gestão dos recursos naturais, devem traduzir de forma autêntica a vontade soberana dos cidadãos.

“Temos que fazer ainda mais e reconhecer-nos como parte da mesma família, fazendo com que a democracia seja, de facto, um exercício em que o poder está centrado no povo’, apelou.

Assumindo uma postura de vigilância cívica, Nelson Moda confessou repartir-se entre dois sentimentos perante a actual realidade do país: a satisfação pelos dividendos da paz e a preocupação com os obstáculos estruturais que continuam por superar.

“Tenho dois sentimentos: um de grande satisfação, sem dúvidas, porque a paz veio e nós usamos e usufruímos dessa paz. Mas, por outro lado, tenho o sentimento de que temos que trabalhar ainda mais sobre essa paz, desenvolvimento e democracia”, explicou.

A crescente polarização e a intolerância no espaço político nacional mereceram igualmente destaque na intervenção de Nelson Moda, que classificou a violência partidária como um sintoma de fragilidade institucional.

“As clivagens políticas e a intolerância política são típicas de uma democracia fragilizada ou em fragilização. É preciso que essas clivagens sejam observadas, mas nunca devem desembocar em violência nem em confrontos físicos entre partes de partidos diferentes”, alertou.

Condenando com veemência os ataques e os homicídios motivados por divergências partidárias, Moda sublinhou que tais actos ultrapulam largamente os limites aceitáveis do contraditório democrático.

“Quando alguém ousa matar outro porque pensa diferente, isso extravasa o exercício da democracia para cair no campo do crime”, declarou.

Para o distinto representante, a preservação do legado de 1992 exige um compromisso irrevogável com o civismo, obrigando as instituições e os actores políticos a canalizarem todas as diferenças exclusivamente para a via do diálogo, de modo a afastar definitivamente o fantasma da violência em Moçambique.

 

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