Opinião

Tomar decisões difíceis para problemas difíceis

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Alexandre Chiure

Todos os problemas existentes na humanidade têm solução. Alguns são de fácil resolução. Outros, dado à sua complexidade e sensibilidade, exigem dos dirigentes mão dura. Significa a tomada de decisões difíceis para os problemas difíceis. Decisões perigosas para os problemas perigosos e, por vezes, impopulares, mas as mais apropriadas para pôr fim a uma situação preocupante.

Quando Nayib Bukele chegou ao poder em 2019, El Salvador estava tomado pelo crime organizado. O país era controlado por duas gangs. As ruas, as cadeias, o parlamento, os tribunais estavam ao serviço de bandidos. São eles que ditavam as regras de jogo e cobravam os impostos. Os índices de criminalidade eram assustadores e o país, ingovernável, era considerado um dos mais perigosos do mundo.

Seis anos depois, El Salvador está diferente. O índice de criminalidade baixou drasticamente. As pessoas já circulam normalmente, o que antes era impensável. A segurança do cidadão melhorou significativamente e, hoje, o país é considerado um dos mais estáveis do planeta. O que é que mudou?

A resposta é simples e clara. Nayib Bukele tomou uma decisão drástica, muito corajosa, mas arriscada, sem o aval do parlamento local. Enfrentou os bandidos, com o risco de ser assassinado. Mandou construir, em 2022, a cadeia mais perigosa do mundo, denominada CECOT – Centro de Confinamento de Terroristas.

CECOT é a maior prisão de segurança máxima do mundo onde os reclusos dormem em beliches de metal, sem colchão e com uma dieta restrita. Passam 23 horas e meia por dia numa cela com capacidade para 100 reclusos cada. Não há lugar para a privacidade. Tudo acontece à vista de todos. O governo de El Salvador mandou recolheu, um por um, todos criminosos para este lugar.

A diferença entre os membros das duas gangs era o tipo de tatuagem. Na prisão, eles não têm o direito de visita. Alguns cumprem penas de 500 anos. Outros, de 700 anos. Aqui, entra-se vivo e sai-se morto. A medida que tomou pode ser considerada impopular ou dizer-se quer viola os direitos humanos, mas foi a mais acertada. Através dela, conseguiu estancar a desordem e a criminalidade e devolveu a tranquilidade ao país.

O presidente de El Salvador, reeleito em 2024 com 85 por cento do votos, fez uma limpeza completa, incluindo a substituição de juízes, nos tribunais, por outros da sua confiança. Hoje, o homem está atrás de corruptos, nem que seja alguém que roubou o correspondente a um metical, e conta com um forte apoio da população.

A história de El Salvador vem a propósito dos raptos em Moçambique. Os primeiros casos registaram-se entre 2010 e 2011, em pleno segundo mandato do presidente Armando Guebuza. Continuaram com muita intensidade no reinado de Filipe Nyusi, ele que reconheceu publicamente que os raptos foram uma das coisas que não conseguiu resolver.

Os criminosos chegavam a ponto de actuar à luz do dia e sem precisar de se mascarar. Os raptos tinham se transformado numa grande indústria de fazer dinheiro movimentando, fora do sistema bancário, 2.1 mil milhões de meticais, entre Janeiro de 2014 e Maio de 2024, o correspondente a 33 milhões de dólares americanos.

Em menos de dois anos de governação de Daniel Chapo, os raptos pararam. Pelo menos há onze meses que não se regista um único. O que é que aconteceu? Que varinha mágica trouxe para controlar a situação? Será que Daniel Chapo é o Nayib Bukele de Moçambique?

Há cerca de três/quatro meses, assistimos, no país, a casos sucessivos de baleamento de agentes da polícia. Alguns, ao longo da estrada circular. Outros, na Manduca e outros ainda noutros pontos do município da Matola.

Há quem entendeu que a onda de assassinato de polícias não passava de queima de arquivos, mas outras correntes de opinião interpretaram o fenómeno como sendo uma limpeza interna na corporação, eliminando agentes de má conduta, alguns dos quais ligados ao crime de raptos.

Não sei qual das duas versões corresponde à verdade. O facto é que de algum tempo a esta parte, a situação melhorou significativamente a seguir aos baleamentos.

Se a paralisação de casos de raptos é uma mera coincidência, temos que agradecer a Deus por nos ter proporcionado onze meses sem raptos, momentos de paz e sossego. Mas se é porque foram mortos os agentes que estavam envolvidos no negócio dos raptos, a decisão foi acertada.

Se devemos, a partir disso, sair a público e gritar, a quatro ventos, que os raptos acabaram em Moçambique e que todos aqueles que fugiram do país já podem regressar, à semelhança de Mutumuke, quando ministro da Defesa Nacional, em relação ao terrorismo, ainda não.

Temos que ser cautelosos. É cedo para embandeirarmos o assunto em arco. É cedo para enterrarmos o machado da guerra. Tudo ainda pode acontecer. Temos que esperar um pouco para podermos comemorar seguros de que de facto conseguimos erradicar o mal.

Mas que é motivo de alegria no país passarmos onze meses sem um único caso de rapto, é, sem dúvida. Nunca, antes, aconteceu uma coisa igual. Espero que o facto represente o fim dos raptos no país, o que seria muito bom.

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