Chapo: “África é rica em recursos, mas ainda retém pouco do valor que estes geram”

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- Presidente defende na ONU a passagem da extracção para a transformação e apresenta Moçambique como plataforma para o investimento e integração regional
África possui recursos naturais procurados pela economia mundial, mas continua a reter uma parcela reduzida do valor gerado pela sua exploração. O Presidente da República, Daniel Chapo, levou esta quarta-feira este problema à Assembleia Geral das Nações Unidas e defendeu uma mudança do modelo assente na exportação de matérias-primas.
“África enfrenta, contudo, um paradoxo: é rica em recursos, mas ainda retém pouco do valor que estes geram”, afirmou Chapo no Debate Geral da 81.ª sessão da Assembleia Geral, em Nova Iorque.
O Presidente defendeu que o investimento evolua da simples extracção para a transformação e criação de valor, “das transacções às parcerias, da dependência à criação de capacidades e da exportação de recursos à construção de cadeias de valor nacionais e regionais”.
Para Moçambique, essa orientação passa por acrescentar valor aos recursos naturais, modernizar a agricultura, promover a industrialização, expandir o acesso à energia e investir em infra-estruturas, educação, saúde, ciência e economia digital. Os recursos naturais, sustentou Chapo, devem contribuir para a diversificação económica, mobilização de receitas e investimento no desenvolvimento humano.
Moçambique apresenta-se como plataforma regional
Chapo apontou a posição de Moçambique no Oceano Índico, os corredores logísticos e o potencial agrícola, energético e mineral como vantagens para transformar o país numa plataforma estratégica para o investimento e a integração regional.
O Presidente disse que o país procura parcerias de longo prazo que criem capacidades nacionais, promovam conteúdo local, respeitem o ambiente e gerem emprego, sobretudo para jovens e mulheres. Moçambique continuará, acrescentou, a diversificar as suas parcerias de forma “soberana, transparente e mutuamente benéfica”, de acordo com as prioridades nacionais.
A integração regional ocupa um lugar central nessa estratégia. Chapo defendeu mercados mais amplos, cadeias produtivas integradas e economias de escala capazes de atrair investimento e estimular a inovação. Apontou os interconectores de electricidade com os países vizinhos e os postos fronteiriços de paragem única entre os exemplos da integração já em curso.
“A integração constrói-se com estradas que aproximam povos, energia que atravessa fronteiras e infra-estruturas que transformam vizinhança em comunidade”, afirmou.
África quer mais do que fornecer minerais
A transformação digital entrou no discurso pela mesma porta dos recursos naturais. Chapo afirmou que África não deve limitar-se a fornecer os minerais que alimentam os centros mundiais de inovação.
O continente precisa, segundo o Presidente, de investimento em conectividade, capacidade computacional, investigação científica e formação, acompanhado por transferência de tecnologia e governação ética da inteligência artificial. Chapo defendeu parcerias que criem capacidades e promovam maior autonomia.
A posição coloca a industrialização tradicional e a economia digital dentro da mesma ambição: aumentar a parcela do valor que permanece nos países africanos e desenvolver capacidade própria para participar nas etapas mais avançadas das cadeias económicas.
Dívida e financiamento limitam capacidade de investimento
Chapo apontou também os custos de financiamento e o peso crescente da dívida entre os obstáculos enfrentados pelos países em desenvolvimento. Com menos de quatro anos para o cumprimento da Agenda 2030, defendeu uma arquitectura financeira internacional mais justa, financiamento previsível e acessível e soluções sustentáveis para a dívida.
O Presidente sustentou que o acesso ao financiamento concessional deve considerar as vulnerabilidades dos países e não apenas o rendimento. Pediu ainda aos países desenvolvidos que cumpram integralmente os compromissos assumidos no financiamento do desenvolvimento e da acção climática.
Para Moçambique, essa discussão cruza-se com a exposição aos eventos climáticos extremos. Chapo referiu vidas perdidas, famílias deslocadas, colheitas destruídas e infra-estruturas danificadas e pediu mais financiamento para adaptação, acesso aos fundos climáticos, operacionalização dos mecanismos de perdas e danos e investimento em sistemas de alerta prévio e infra-estruturas resilientes.
A ambição apresentada em Nova Iorque ultrapassa, porém, a captação de financiamento. Chapo defendeu uma mudança do lugar ocupado pelo continente na economia mundial: “África deve ser autora do seu próprio destino, participar na definição das regras e beneficiar plenamente da riqueza que ajuda a criar”.




