Cultura

Tlhangano: quando a música devolveu a harmonia e reuniu no mesmo palco dois gigantes da Marrabenta

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  • Em noite mágica com Centro de Conferências Joaquim Chissano a transbordar
  • Wazimbo e José Mucavele voltam a cantar juntos depois de quatro décadas de costas voltadas
  • Daniel Chapo defende a preservação e maior investimento na cultura moçambicana

Era para ser apenas mais uma noite de música. Mas Maputo tinha outros planos e o Centro de Conferências Joaquim Chissano tornou-se pequeno para a dimensão daquilo que ali acontecia. Não era apenas um concerto. Era um reencontro. Uma espécie de acerto de contas com o tempo. Uma página da história da música moçambicana que, depois de mais de quatro décadas fechada, voltou a ser aberta diante de uma sala cheia. No palco, dois dos nomes maiores da música ligeira moçambicana: Wazimbo e José Mucavele.

Evidências

Durante cerca de 40 anos, os dois estiveram desavindos. Uma zanga, nascida de um desentendimento, separou dois músicos que um dia haviam partilhado palco, música, histórias e uma parte importante da construção da nossa identidade cultural.

Foi preciso tempo. Foram precisas conversas, aproximações e várias missões de negociação para que aquilo que parecia pertencer ao passado pudesse, finalmente, voltar a acontecer. E aconteceu. Os organizadores chamaram-lhe Tlhangano, palavra em changana que significa reencontro.

Quando Wazimbo e Mucavele apareceram juntos, o público percebeu que não estava diante de uma simples actuação. Estava diante de um momento que dificilmente se repetirá da mesma maneira. A música encarregou-se do resto.

Vieram os sucessos. Um após outro. “Mahulwana”, “Valha”, “Balada para as Minhas Filhas”, entre outras canções de um repertório que atravessou gerações e sobreviveu às mudanças de gosto, de época e de país.

Houve momentos em que a sala simplesmente escutou. Noutros, os aplausos interromperam as canções. Depois vieram os corpos. Gente a dançar. Gente a cantar. Gente de pé, como se o aplauso fosse insuficiente para traduzir aquilo que estava a acontecer. Era como se cada canção trouxesse consigo uma fotografia antiga de Moçambique.

O palco recebeu também a Ghorwane, Xixel Langa e Tchakaze, numa sucessão de gerações e linguagens que ajudou a transformar a noite numa espécie de ponte entre diferentes momentos da música moçambicana.

E porque uma boa celebração também precisa de riso, Edu All Talents e Borges Macuácua trataram de lembrar que a cultura não se vive apenas com os pés a dançar e os olhos a contemplar. Também se vive com gargalhadas.

Entre as muitas pessoas que encheram o Centro de Conferências Joaquim Chissano, duas presenças chamaram particularmente a atenção. O Presidente da República, Daniel Chapo, e o antigo Presidente da República, Armando Guebuza, acompanhado pela sua esposa, estiveram entre os espectadores.

A presença de Guebuza, antigo chefe do Estado, e de Chapo, actual Presidente da República, acrescentou uma outra dimensão à noite. Ali estava a política a assistir à cultura. Mas, por algumas horas, a cultura parecia ter conseguido fazer aquilo que a política nem sempre consegue: juntar pessoas, gerações e memórias diferentes em torno de algo que pertence a todos.

As honras da casa estiveram a cargo do presidente do Conselho Municipal de Maputo, Rasaque Manhique, numa noite em que a cidade também se apresentou como anfitriã de uma das mais simbólicas celebrações recentes da sua música.

Chapo e o aviso de a que memória também se financia

No fim da música, vieram as palavras. Daniel Chapo aproveitou o momento para defender que a cultura deve ser assumida como uma das bases da identidade nacional e uma responsabilidade do Estado.

“Um povo que não tem cultura não tem identidade”, afirmou o Presidente, defendendo a preservação dos valores culturais e, particularmente, daquilo que chamou de “geração do ouro” da música moçambicana.

Chapo recordou o papel desempenhado por esses artistas no período da proclamação da independência nacional e defendeu que o seu legado não pode ficar entregue apenas à memória dos que viveram aquela época.

A aposta, disse, deve passar também pelas novas gerações. Nesse sentido, apontou a expansão da Escola Nacional de Música para as regiões Centro e Norte e defendeu que, no futuro, cada província possa contar pelo menos com uma escola de música.

Mas foi mais longe. O Presidente falou da necessidade de aproximar educação e cultura e de investir nas chamadas indústrias criativas, para que a cultura deixe de ser vista apenas como espaço de entretenimento e passe também a ser encarada como actividade económica capaz de gerar rendimento para os artistas e para o país.

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