Última Hora: Doze membros da Força Local são acusados de torturar secretário de aldeia em Ancuabe

ANCUABE, Cabo Delgado — Doze membros da Força Local são acusados de terem torturado o secretário da aldeia de Nicuita, na localidade de Gihote, distrito de Ancuabe, num episódio que está a provocar indignação e tensão entre os moradores da comunidade.
Segundo informações recolhidas pelo Moz24h junto de fontes locais, os elementos da Força Local terão entrado na comunidade durante a manhã desta terça-feira, 25 de Agosto de 2026, efectuando vários disparos em rajadas.
A presença dos homens armados e o som dos tiros terão surpreendido os moradores. Inicialmente, parte da população terá pensado que se tratava de uma incursão de insurgentes, levando alguns residentes a abandonar a aldeia e procurar zonas consideradas mais seguras.
Já no interior da comunidade, os elementos da Força Local terão agredido o secretário da aldeia, Sérgio Mário, utilizando a coronha de uma arma de fogo.
Durante a alegada intervenção, a esposa do secretário também terá sido retirada à força. Segundo os relatos recolhidos pela mesma fonte, os elementos envolvidos terão ainda fotografado a mulher em aproximadamente cinco ocasiões.
Uma fonte local afirma que, durante a incursão, terão sido efectuados cerca de 30 disparos em rajadas.
Até ao momento, contudo, não foram esclarecidas as razões que terão levado os membros da Força Local a entrar na comunidade e a actuar contra o secretário da aldeia.
População exige explicações
O episódio provocou revolta entre os moradores de Nicuita.
Segundo Alberto Auiba, um dos chefes de bairro da aldeia, a população foi surpreendida durante a intervenção, numa altura em que grande parte dos residentes se encontrava nas machambas.
Auiba questiona as razões que levaram os elementos da Força Local a entrar na comunidade daquela maneira e, sobretudo, a agredir o secretário da aldeia.
A tensão aumentou ao ponto de alguns moradores ameaçarem deslocar-se ao Governo do distrito de Ancuabe para exigir explicações sobre o que aconteceu.
Perante o risco de agravamento da situação, o chefe da localidade de Gihote, Suaide Inácio Salimo, deslocou-se à aldeia e reuniu-se com a população numa tentativa de acalmar os ânimos.
Depois da intervenção, Suaide Inácio Salimo levou o secretário da aldeia e a rainha da comunidade para a vila-sede de Ancuabe, onde procurariam obter esclarecimentos junto das autoridades distritais.
Suspeitas recaem sobre antigo secretário
Entretanto, alguns moradores suspeitam que o episódio possa estar relacionado com conflitos internos de liderança na comunidade.
A população aponta o antigo secretário da aldeia, Hermínio Mpuimo, como possível mandante da alegada acção. Segundo as suspeitas apresentadas pelos moradores, Mpuimo poderia ter ordenado a intervenção da Força Local como forma de vingança depois de deixar o cargo.
Contactado pelo Moz24h, Hermínio Mpuimo negou categoricamente qualquer envolvimento.
O antigo secretário explicou que já deixou de exercer a função há algum tempo e afirmou que, no momento em que o incidente ocorreu, encontrava-se na sua machamba, ocupado com as suas actividades.
“É mentira que eu tenha mandado a Força Local fazer isso”, declarou, rejeitando qualquer responsabilidade pela alegada agressão.
Nicuita já foi alvo de ataque insurgente
A comunidade de Nicuita já foi directamente afectada pela insurgência que assola a província de Cabo Delgado.
Em 19 de Junho de 2022, a aldeia foi alvo de um ataque terrorista, no contexto da expansão da violência para o distrito de Ancuabe.
O novo episódio, desta vez envolvendo membros da própria Força Local, volta a colocar a população numa situação de particular vulnerabilidade e levanta preocupações relacionadas com possíveis abusos, uso indevido da força e conflitos entre estruturas locais de autoridade.
Até ao momento, não havia informação sobre qualquer pronunciamento oficial das autoridades distritais de Ancuabe ou das estruturas responsáveis pela Força Local relativamente às acusações de tortura, disparos e retirada da esposa do secretário.
O caso continua sob atenção, enquanto a população aguarda esclarecimentos sobre quem terá ordenado a operação, quais foram as suas motivações e se os actos denunciados poderão resultar em responsabilização dos envolvidos.
Fonte: Moz24h




